Memórias d'Ajuda
história, literatura, feijão, filosofia, antropologia, arroz, psicanálise, arte, acarajé
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
ASAS PARA PORTO SEGURO - HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO ANTIGO CAMPO DE AVIAÇÃO DO ARRAIAL D’AJUDA
.Pensar a relacao entre pessoas e os espacos e uma tarefa dificil. As memorias contidas nos lugares revelam toda uma dinamica social, politica e economica de uma determinada comunidade e as complexas estrategias de desenvolvimento de uma sociedade. e disso que trata o presente livro. Fruto de um projeto comunitario, que contou com a participacao direta e indireta de muitas pessoas e instituicões, ele e um perfeito exemplo do quanto a afetividade que permeia a memoria pode fortalecer os lacos identitarios de uma comunidade. Na obra, o antigo Campo de Aviacao do Arraial d’Ajuda, inaugurado em 1939 no maior evento da aviacao civil latino-americana da epoca, e o personagem central da trama que revela como ele foi responsavel pelo desenvolvimento economico e social de um municipio. A pesquisa que deu origem ao livro revelou aspectos historicos regionais que estavam quase esquecidos, tal como os impactos da Segunda Guerra Mundial no extremo Sul da Bahia. A obra esta recheada de imagens da regiao, algumas das quais nao eram vistas ha mais de sessenta anos. Por tudo isso, e muito mais, este trabalho e singular e levara o leitor a uma grande viagem pela historia do Brasil, partindo do Arraial d’Ajuda.
Para adquirir o livro, clique aqui:
https://www.pacolivros.com.br/Asas-Para-Porto-Seguro
terça-feira, 1 de maio de 2018
O SÃO BENEDITO
Cemitério São Benedito;
Por Galileu L. Jr
Foto: Galileu
“Foi durante uma visita não planejada ao cemitério São Benedito, em Arraial d'Ajuda, por conta de uma missa ali celebrada no dia de finados, que me deparei com as condições precárias dos túmulos e sua falta de informações sobre quem está ali sepultado e desde quando, com o efeito das ações de vandalismo que o impactaram, o descuidado com as lápides que ainda restam e o descaso de grande parte da população em relação àquele pequeno cemitério cravado no coração do povoado desde fins do século XIX.
Com o propósito de contribuir para a preservação física e da identidade cultural desse espaço, percorri vários caminhos na busca de informações que me fizessem compreender a estrutura social do Arraial d'Ajuda. Nesse caminho, onde usei a entrevista como fonte de pesquisa, fui contemplado com depoimentos carregados de emoção de personagens até então invisíveis aos dados historiográficos sobre o povoado.
Em pesquisa ainda em andamento, difícil é encontrar registros de óbitos nos cartórios de registro civil da grande maioria dos sepultados ali. Principalmente àqueles do final do século XIX, época provável de sua construção, visto que assim determinava a corte em relação aos sepultamentos extramuros, ou seja, fora das igrejas. Lembramos que no século XIX, Arraial não passava de um minúsculo povoado pobre, de pequenos agricultores e pescadores, em que os registros de nascimento e óbitos eram, praticamente, inexistentes. Já aqueles sepultados a partir da metade do século XX, tem seus registros mais facilmente encontrados.
O cemitério São Benedito recebe cerca de 60 túmulos horizontais, em uma área descoberta de aproximadamente 150 m2, em estilo jesuítico, com poucas sepulturas identificadas por lápides de pequenas dimensões ao nível do chão, localizado a cerca de 200 metros da Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda. Na paisagem cemiterial do São Benedito, podemos identificar indivíduos que tiveram importância na sociedade, estrangeiros e também indivíduos que jamais recebem visitas de algum familiar ou ente querido. Encontramos ali, entre outros, os restos mortais de Fábio Messias Nobre, Guiomar Gonçalves, George Oliveira, Manoel Crescêncio Santiago, Joana Ramos e Graciliano Ramos, José Borges Valiense, João Alves Santos, Lindalva Evangelista, Carlos Valiense, Pedro Hansen, Josiel Borges Lage, Bento Alexandrino de Moraes e muitos outros.
Uma curiosidade: em descrição da lápide em termos de antiguidade ainda preservada e visível, verificamos a sepultura de Antônio da Silva, de 1905. O cemitério foi desativado em 1994, ano da construção do novo cemitério, chamado Jardim da Paz. Há controvérsias ainda sobre o último sepultado no São Benedito, sendo, possivelmente, Ruth de Souza Santos, em 1994. Observa-se que no dia-a-dia, grande parte da população, seja local ou de turistas que visitam o povoado, não atentam para a importância e muito menos para a preservação do cemitério enquanto patrimônio cultural. Ele é praticamente invisível.
Ali encontra-se sepultada uma pequena, mas importante parte da história do povoado e é preciso resgatar e preservar a memória local e, por que não, regional deste lugar, que é considerado pela historiografia oficial o espaço dos primeiros encontros entre europeus e grupos indígenas. Além de resgatar e trabalhar para impedir que essa memória desapareça, é necessário buscar soluções para preservar o espaço físico do histórico cemitério, como os túmulos, lápides, jardim, capelinha com o São Benedito, muros, portada e iluminação.”
Por Galileu L. Jr
Foto: Galileu
“Foi durante uma visita não planejada ao cemitério São Benedito, em Arraial d'Ajuda, por conta de uma missa ali celebrada no dia de finados, que me deparei com as condições precárias dos túmulos e sua falta de informações sobre quem está ali sepultado e desde quando, com o efeito das ações de vandalismo que o impactaram, o descuidado com as lápides que ainda restam e o descaso de grande parte da população em relação àquele pequeno cemitério cravado no coração do povoado desde fins do século XIX.
Com o propósito de contribuir para a preservação física e da identidade cultural desse espaço, percorri vários caminhos na busca de informações que me fizessem compreender a estrutura social do Arraial d'Ajuda. Nesse caminho, onde usei a entrevista como fonte de pesquisa, fui contemplado com depoimentos carregados de emoção de personagens até então invisíveis aos dados historiográficos sobre o povoado.
Em pesquisa ainda em andamento, difícil é encontrar registros de óbitos nos cartórios de registro civil da grande maioria dos sepultados ali. Principalmente àqueles do final do século XIX, época provável de sua construção, visto que assim determinava a corte em relação aos sepultamentos extramuros, ou seja, fora das igrejas. Lembramos que no século XIX, Arraial não passava de um minúsculo povoado pobre, de pequenos agricultores e pescadores, em que os registros de nascimento e óbitos eram, praticamente, inexistentes. Já aqueles sepultados a partir da metade do século XX, tem seus registros mais facilmente encontrados.
O cemitério São Benedito recebe cerca de 60 túmulos horizontais, em uma área descoberta de aproximadamente 150 m2, em estilo jesuítico, com poucas sepulturas identificadas por lápides de pequenas dimensões ao nível do chão, localizado a cerca de 200 metros da Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda. Na paisagem cemiterial do São Benedito, podemos identificar indivíduos que tiveram importância na sociedade, estrangeiros e também indivíduos que jamais recebem visitas de algum familiar ou ente querido. Encontramos ali, entre outros, os restos mortais de Fábio Messias Nobre, Guiomar Gonçalves, George Oliveira, Manoel Crescêncio Santiago, Joana Ramos e Graciliano Ramos, José Borges Valiense, João Alves Santos, Lindalva Evangelista, Carlos Valiense, Pedro Hansen, Josiel Borges Lage, Bento Alexandrino de Moraes e muitos outros.
Uma curiosidade: em descrição da lápide em termos de antiguidade ainda preservada e visível, verificamos a sepultura de Antônio da Silva, de 1905. O cemitério foi desativado em 1994, ano da construção do novo cemitério, chamado Jardim da Paz. Há controvérsias ainda sobre o último sepultado no São Benedito, sendo, possivelmente, Ruth de Souza Santos, em 1994. Observa-se que no dia-a-dia, grande parte da população, seja local ou de turistas que visitam o povoado, não atentam para a importância e muito menos para a preservação do cemitério enquanto patrimônio cultural. Ele é praticamente invisível.
Ali encontra-se sepultada uma pequena, mas importante parte da história do povoado e é preciso resgatar e preservar a memória local e, por que não, regional deste lugar, que é considerado pela historiografia oficial o espaço dos primeiros encontros entre europeus e grupos indígenas. Além de resgatar e trabalhar para impedir que essa memória desapareça, é necessário buscar soluções para preservar o espaço físico do histórico cemitério, como os túmulos, lápides, jardim, capelinha com o São Benedito, muros, portada e iluminação.”
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
CARNE SEM OSSO E FARINHA SEM CAROÇO
No século XIX, em Salvador, políticos travaram duelo em torno do controle do preço da farinha, enquanto o povo promovia violentos distúrbios nas ruas. João José Reis
Tudo começou com a publicação de uma postura (ou lei municipal) pela Câmara de Salvador. Ela estabelecia que a farinha de mandioca só poderia ser vendida em depósitos específicos (“tulhas”) em alguns pontos da cidade, e principalmente no Celeiro Público, espécie de mercado municipal. A intenção era controlar o preço do produto, protegendo-o da ação de atravessadores e monopolistas. A carestia da farinha, o “pão dos pobres”, afligia as classes populares. Foi um ano de seca catastrófica. Entre 1851 e 1858, o preço tinha subido cerca de 300%. O presidente da província, João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (1810-1906), aprovou a postura, em caráter provisório, no início de 1857. Mas, no fundo, ele duvidava da solução proposta pela Câmara. Adepto do liberalismo econômico, ele achava que a livre concorrência era capaz de baixar os preços. Atendendo a reclamações de comerciantes, acabou suspendendo a medida em 25 de abril daquele ano, até que ela fosse examinada pela Assembléia Provincial.
Reunidos em outubro para discutir a matéria, os deputados não chegaram a uma conclusão definitiva. A disputa contrastava, de um lado, uma visão mais intervencionista do mercado, segundo a qual o governo devia proteger os cidadãos desfavorecidos contra os especuladores e estabelecer o preço “justo” dos alimentos, e de outro, o liberalismo, a doutrina do laissez-faire, que acreditava na lei da oferta e da procura para regular os preços. Em janeiro de 1858, entendendo que já se esgotara o prazo para que a postura fosse revogada, os vereadores voltaram a editá-la sem o consentimento do presidente Sinimbu. No ofício que enviaram a ele comunicando a decisão, os vereadores insinuavam ter havido manobras junto à Assembléia contra sua aprovação. Denunciavam a existência de “um monopólio nos gêneros alimentícios e que este não pode ser destruído pela liberdade de comércio, porque nada vale esta liberdade quando não há e não se pode estabelecer a livre concorrência”. Dito isso, os vereadores restabeleceram a postura e mandaram afixá-la nas ruas e publicá-la nos jornais da cidade. Câmara e Presidência de Província passaram um mês debatendo sobre quem mandava no mercado de Salvador. A população parecia acompanhar atentamente, por meio das conversas nos mercados, nas esquinas, tavernas, e também pelos jornais. Durante a noite, alguns mais radicais afixavam escritos nas paredes ameaçando de morte o presidente. Durante o dia, a polícia, sob controle do governo provincial, entrava em conflito com os fiscais da Câmara, que tentavam obrigar os comerciantes a cumprir a lei municipal. Temendo uma escalada das tensões, Sinimbu escreveu mais um ofício exigindo que a Câmara revogasse o edital, o que provocou resposta longa e altiva dos vereadores. Em resumo, segundo eles, o ato do presidente caracterizava abuso de poder. Exigiam respeito pela instituição “que representa o povo deste município”. No mesmo dia, 25 de fevereiro de 1858, o presidente decidiu suspender – pois tinha poderes para tal – os cinco vereadores que haviam assinado o documento, substituindo-os por seus suplentes.
Assim estava a situação quando, em 28 de fevereiro, explodiu uma manifestação de rua totalmente inesperada. Não era dia de feira, nem mesmo dia de se pensar muito em comida, pois se tratava do segundo domingo da Quaresma, tempo de jejum. Transcorria uma missa na igreja da Santa Casa da Misericórdia, a alguns passos da praça onde se localizavam a Câmara Municipal e o palácio do governo da província. De repente, gritos femininos chamaram a atenção dos fiéis e dos transeuntes. Eram as recolhidas da Santa Casa, moças solteiras, geralmente pobres, que protestavam contra a remoção de algumas delas para um convento, medida disciplinar provocada pela oposição que faziam às freiras francesas de São Vicente de Paulo, recém-contratadas para educá-las. Alguns homens acudiram aos pedidos de socorro das jovens, invadiram a Misericórdia e brigaram por elas. As freiras tiveram que sair sob escolta e se refugiaram no palácio presidencial. Foi então que a pequena multidão que as seguia ganhou o reforço de novos adeptos, que de perseguidores de freiras se transformaram em manifestantes contra a carestia, gritando: “Queremos carne sem osso e farinha sem caroço!”, frase que veio a dar nome àquele movimento. Soube-se depois que as moças também tinham queixas alimentares, pois as freiras haviam introduzido na Santa Casa uma dieta insossa e parca, que não fazia jus à reputação culinária de seu país. As recolhidas, que antes tinham comida de sobra – a ponto de serem acusadas de vendê-la a preços módicos para fregueses certos –, agora só tinham a mesma carne sem osso e farinha sem caroço do resto da população. Da Santa Casa para o palácio foi um passo, e dali para a Casa da Câmara, uma distância ainda menor.
A multidão ocupou o prédio dando vivas à Câmara e ao povo, e a gritar foras ao presidente. Algumas pessoas subiram à torre, tocaram o sino convocando mais gente, e a praça foi ocupada para novos protestos contra Sinimbu. O palácio foi apedrejado, vidros de suas janelas foram quebrados, um oficial militar ficou ferido. A tropa, inclusive a cavalaria, atacou a multidão com baionetas e espadas. Recebeu pedradas em troco. Muitos saíram feridos, alguns gravemente. Os ânimos só serenaram com o cair da noite, tendo durado a refrega umas quatro horas. No dia seguinte, novos conflitos ocorreram na praça do palácio. Naquela segunda-feira, 1º de março, a Câmara, agora composta na sua maioria por suplentes, se reuniria para discutir as ordens de Sinimbu que proibiam a postura. Às 10 horas já havia uma pequena concentração popular na praça, que estava tomada por guardas nacionais e tropas do Exército. Iniciada a sessão da Câmara, os populares começaram novamente a gritar contra a carestia e logo ocupavam a sala onde se reuniam os vereadores. O presidente da Câmara parece haver solicitado a presença de força militar para desocupar o prédio e permitir a normalidade dos trabalhos. Sob protestos, os manifestantes se retiraram para a praça, onde se repetiram as cenas do dia anterior, com muitas prisões durante e depois dos confrontos.
Enquanto isso, no interior da Câmara a ordem presidencial era acatada por unanimidade. Em seguida, para não passar a impressão de capitulação absoluta, o vereador e tenente-coronel Manoel José de Magalhães sugeriu que se estudasse a criação de uma companhia dedicada ao fornecimento de alimentos. A proposta foi aprovada e uma comissão levou-a ao presidente da província. Mas Sinimbu avisou que nenhuma medida seria tomada enquanto não se amainassem “os espíritos [que] se achavam agitados pela comoção popular”. E conclamou o povo a retornar a seus afazeres cotidianos e confiar na Câmara e no governo, que juntos procurariam uma solução “para minorar o mal, de que o mesmo povo se queixava”. Naquele mesmo dia, enquanto os suplentes capitulavam, Manoel Jerônimo Ferreira, juiz de paz e um dos vereadores suspensos, escreveu uma carta dura ao presidente, acusando-o de servir a um pequeno círculo de monopolistas em detrimento da população, e ser “somente dominado pelos princípios econômicos, que tanto peso têm para V. Exa., e essa liberdade comercial tantas vezes invocada”. Advertia-o de que a doutrina liberal não estava dando certo. “O Povo”, ele escreveu, “não vive de teorias, vive de realidades”. E embora achasse ilegal a suspensão de seu mandato, Ferreira afirmou que a acataria, para não ter o presidente pretexto para vingar-se contra ele, como tinha feito contra a população indefesa, dispersando-a a baionetas e patas de cavalos, agindo com “o mais feroz canibalismo”. E os ataques continuaram no dia seguinte, quando Ferreira afirmou que Sinimbu havia instalado na Bahia “a mais abominável ditadura”.
O presidente, entretanto, não estava só. Contava com forte apoio dos negociantes reunidos na Associação Comercial, que saíram em defesa do presidente e do livre mercado. Sobre o que se poderia fazer para baixar o preço da farinha, escreveram seus dirigentes que não haveria “meio nenhum senão a concorrência entre os diversos vendedores deste artigo”. Lamentavam a injustiça que a cidade estava fazendo com o presidente, por promover a livre concorrência, e com os comerciantes, por concorrerem livremente. Os vereadores não achavam a concorrência assim tão livre. Segundo eles, três ou quatro comerciantes definiam o abastecimento, e assim controlavam os preços da farinha e da carne fresca em Salvador. Esses monopolistas, segundo denúncia de pequenos comerciantes de farinha, eram portugueses que tinham tulhas dentro do Celeiro Público operadas por africanos libertos e escravos, “os quais, apenas chegam os barcos, compram por atacado o carregamento”, que vinha em barcos do Recôncavo, do sul da Bahia e de outras províncias do Brasil. Desse modo, os portugueses sempre se achavam “sortidos de farinha”, que era “marcada pelo preço que lhes parece”. O campo da disputa estava bem delimitado: de um lado, os “brasileiros natos”, que estavam perdendo, de outro os estrangeiros, que venciam.
Embora tivesse vencido os manifestantes e a Câmara, três meses depois Sinimbu partiria para o Rio de Janeiro, onde assumiria uma cadeira no Senado e no ano seguinte se tornaria ministro dos Negócios Estrangeiros. Felizmente, partiu antes do 2 de julho, aniversário da independência na Bahia. Corriam rumores de que se planejava uma revolta contra ele nesta data cívica local, em que se celebrava com grandes manifestações populares a baianidade, o nativismo e a antipatia aos estrangeiros – Sinimbu era considerado um deles, assim como os comerciantes de farinha portugueses, sem falar nas freiras francesas.
Na Bahia de 1858, a luta contra a carestia se misturou com a luta em torno de direitos políticos, ganhando uma linguagem de defesa da cidadania. Como escrevera o vereador Manoel Ferreira, os manifestantes não se opuseram apenas a uma abstrata doutrina do livre mercado, a um poder provincial que não estava respondendo a suas demandas por comida barata. Se o povo apostava na proteção da Câmara, também acreditava que precisava proteger a Câmara. Essa relação de reciprocidade refletia um processo de construção da cidadania do homem livre pobre da cidade. Nisso – e no direito à comida barata – residia a legitimidade do movimento. Antes de ele estourar, já ocorria uma mobilização popular de insatisfação. Durante semanas, atividades subterrâneas – e noturnas – indicavam alguma organização de contestação. Pasquins apareceram afixados nas ruas ameaçando de morte o presidente. Grupos organizados de trabalhadores escreveram petições ao presidente e a outras autoridades contra os baixos salários e os preços exorbitantes dos alimentos. Durante os conflitos, despontaram lideranças populares, que certamente não se fazem de uma hora para outra. O guarda nacional Santana incitou o povo contra as irmãs da Santa Casa. O carpinteiro Justiniano gabou-se publicamente de participação ativa no motim.
O que aconteceu em 1858 foi uma reedição, com as devidas inovações, de uma tradição da Bahia rebelde que vinha desde o final do século XVIII, com a conspiração dos alfaiates. Outras revoltas pontilharam a província nas décadas de 1820 e 1830. Nelas, a primeira ação dos manifestantes era ocupar a Câmara e convocar o povo, em geral com o toque do sino, tal como ocorreu por ocasião do motim da fome. O ato de tocar o sino emprestava dimensão ritual aos movimentos políticos, chamando os habitantes para abraçar alguma causa. Nessas horas, a casa da Câmara de fato simbolizava o poder popular. Houve, então, uma dimensão política no movimento de 1858. Assim, não basta levar em conta apenas a barriga do povo e a cabeça do governo para explicar o motim da “carne sem osso e farinha sem caroço”. Uma rede complexa de comportamentos, necessidades e interesses balançou Salvador durante aqueles dois dias. E um acaso. É provável que o motim não tivesse ocorrido, ou o tivesse de outro modo, sem o incidente com as moças da Misericórdia e a disputa envolvendo a Câmara e o presidente. Em movimentos desse tipo, a carestia é uma condição necessária, mas não suficiente. Talvez isso explique por que no ano seguinte, quando o preço da farinha bateu o recorde da década, Salvador manteve-se em paz. Em junho de 1858, logo após a saída de Sinimbu da Bahia, o vice-presidente em exercício, desembargador Manoel Messias de Leão, aprovou a postura da Câmara, e em outubro a Assembléia Provincial a ratificou. Mas a carestia persistiu. Em novembro, o pedreiro Theodosio da Costa Lima, que se ocupava de obras públicas, já desistira de acreditar na capacidade das autoridades locais de resolver seu problema e escreveu diretamente ao imperador, esse protetor distante, pedindo aumento salarial. Sua remuneração, queixou-se, “na época atual, quando a carestia nos aperta em seus braços de ferro, não pode chegar para a alimentação de uma família grandiosa”.
João José Reis é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia e autor de Rebelião escrava no Brasil (Companhia das Letras, 2003).
FONTE: http://www.revistadehistoria.com.br/
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
História da Capitania de Porto Seguro
Novos Estudos sobre a Bahia Colonial, Séc. XVI – XIX
Francisco Cancela (Org.); Tharles Souza Silva; Uiá Freire Dias dos Santos
Essa coletânea é resultado dos estudos realizados pelo Grupo de Estudos sobre América Portuguesa, do DCHT/Campus XVIII da UNEB. Com pouco mais de um ano de existência, o GEAP tem contribuído para a formação de um campo de pesquisa sobre a história da antiga Capitania de Porto Seguro, desenvolvendo inúmeros projetos de identificação e digitalização de fontes documentais, de organização e realização de eventos e de promoção de novos temas e abordagens de estudo.
O livro "História da Capitania de Porto Seguro" expressa as potencialidades desse jovem grupo de estudos, pois registra novas perspectivas sobre a história de uma região que, embora conviva com um capital simbólico marcado pela história, enfrenta um paradoxal silenciamento historiográfico.
Sumário: Capítulo 1: A capitania de Porto Seguro: territórios, paisagens e história;
Capítulo 2: Superando equívocos, apontando evidências: notas sobre a economia da capitania de Porto Seguro (séculos xvi-xviii); Capítulo 3: O coração e uma parte do corpo: a instalação do governo-geral e o governo interino de Duarte de Lemos na capitania de Porto Seguro (1549-1555);
Capítulo 4: O negócio do pau-brasil: entre o regimento de 1605, contratos, contratadores e lavradores da capitania de Porto Seguro (1605-1640);
Capítulo 5: Redes de interesses e contrabando de pau-brasil na comarca de Porto Seguro;
Capítulo 6: Histórias não contadas: degredo interno e reinserção social na comarca de Porto Seguro.
VALE VERDE: ALGUMAS HISTÓRIAS DE UMA COMUNIDADE.
Por Ivaneide Almeida da Silva
Fotos: Galileu
Anais Eletrônicos - VI Encontro Estadual de História - ANPUH/BA - 2013 issn 2175-4772
Vale Verde é uma vila rural localizada na margem do rio Buranhém, entre Arraial d’Ajuda e Trancoso, aproximadamente 40 km da sede do Município de Porto Seguro, Bahia. A história de Vale Verde coincide com o processo de colonização da América Portuguesa, a vinda dos Jesuítas para o Brasil e a história indígena, pois nesse local, durante a segunda metade do século XVI, foi fundada a Missão Jesuítica Aldeia do Espírito Santo dos Índios ou Aldeia Patatiba.
Os índios tinham sua cultura e aldeias de origem, mas com o projeto colonizador, o espaço foi determinado por esses processos históricos, por tradições, costumes e, entre outros, os agrupamentos e reagrupamentos socioespaciais, em função de diversos movimentos migratórios para a região. Assim, atualmente a comunidade de Vale Verde tem seu arranjo espacial, caracterizado pela sua cultura, seus costumes e pormenores sociais dos grupos, mantendo diversos e múltiplos relacionamentos com o seu passado. Após a expulsão dos Jesuítas, no século XVIII, a antiga missão jesuítica passou a ser chamada de Aldeia Vila Verde, depois se tornou Paróquia de Vila Verde e somente no século XX, passa a ser chamada de Vale Verde, como distrito de Porto Seguro. Com o crescimento da população, tendo como principal motivo a chegada de famílias de outras regiões e outros estados, foram surgindo povoados bem próximos.
Atualmente, o distrito é constituído das comunidades de Vale Verde, Bom Jesus, Nossa Senhora da Aparecida e São Miguel. Antes do início da coleta de dados, algumas visitas foram realizadas na comunidade de Vale Verde e os primeiros contatos foram estabelecidos com moradores e coordenadores da Associação de Moradores de Vale Verde, explicando os objetivos e propósitos da pesquisa, que objetiva estudar a história do local, e caracterizar suas práticas sociais e culturais, a partir da história de vida dos seus moradores. As visitas ao local, a participação nas festas religiosas locais e as conversas com os moradores forneceram muitas informações sobre a vida na região, a vida escolar, a produção doméstica, alguns costumes e hábitos, possibilitando que os próprios moradores contribuíssem para a seleção de critérios na escolha dos informantes. Esses deveriam ser moradores ou que vivessem há mais tempo no local e, sobretudo, os que aceitassem participar da pesquisa. A coleta de dados e as conversas com os moradores da comunidade continuam, sempre explicando os objetivos da pesquisa e pedindo o aceite verbal para a realização das entrevistas. Estudos históricos sobre essa comunidade, sobre suas relações sociais e como elas foram se estabelecendo ao longo do tempo, ainda não foram acessados. Nesse caso, as fontes estudadas são os relatos de moradores de Vale Verde. A História Oral foi o que nos aproximou de Vale Verde, possibilitando, através da memória e oralidade dos moradores, valorizar a memória coletiva, a história local e cultural daquela comunidade, além de poder pensar os saberes, as técnicas, práticas e maneiras de conviver desenvolvidas pelos povos, constituindo conhecimentos que, são transmitidos de geração a geração, muitas vezes, oralmente. Segundo Certeau, são os saberes construídos e reconstruídos no dia a dia, por pessoas comuns, de usos comuns, que constroem a história humana.
O registro da história de vida de indivíduos focalizam suas memórias pessoais e dessa forma pode-se construir uma visão mais concreta da dinâmica de funcionamento e das diversas etapas da trajetória do grupo social ao qual pertencem. Através da história oral ainda podemos produzir fontes de documentação e pesquisa, por meio do registro, transcrição, edição dos depoimentos e testemunhos colhidos, o que é importante para grupos e comunidades que pouco se documentam. A construção da história de Vale Verde está sustentada na lembrança dos seus moradores mais antigos, como Seu José d’Oliveira, dona Maria de Oliveira (in memorian), dona Naná e seu Santo, seu Metódio e seu Gezo, e quando é relembrada e contata, desperta a atenção de muitos na comunidade, que fazem referência às suas lembranças individuais e coletivas sobre o lugar. O registro de experiências vividas pelos informantes constitui um instrumento fundamental para compreensão do passado recente, como afirma Thomson “Ouvindo os mitos, as fantasias, os erros e as contradições da memória, e prestando atenção às sutilezas da língua e da forma narrativa, podemos entender melhor os significados subjetivos da experiência histórica”. A maneira pela qual as histórias de vida são narradas (ênfases e silêncios) pode revelar a natureza e o significado da experiência histórica individual ou coletiva, relacionada com a comunidade. Essa questão é presente entre os moradores de Vale Verde, que constituem um grupo ligado ao lugar em que vivem, conservam seu ambiente, mantendo suas tradições culturais e sociais, a produção agrícola e artesanal, além de se organizarem, para buscar melhorias e visibilidade local, mas mantendo as origens da comunidade.
Muitos grupos se transformam, mas mantém a tradição, pois segundo Benjamim,“o que muda, muda sempre a partir do patrimônio anteriormente construído, que permanece em parte no novo”. Muitos são os estudos sobre comunidade, mas não se pretende aqui discutir suas definições mais clássicas ou as suas reelaborações, no entanto, Brancaleone revisita o conceito de comunidade de Ferdinand Tönnies, que apontou três formas de sociabilidade comunitária: os laços de consanguinidade (parentesco); de coabitação territorial (lugar e vizinhança) e de afinidade espiritual (amizade). Ou seja, pode-se pensar uma comunidade em relação aos seus grupos, ligados e unidos por interesses em comum, pela vontade e interesses dos seus membros. E assim, desenvolvem-se práticas coletivas e de organização comum, tradicionais entre eles, estabelecendo relações com a cidade e com a região, onde a comunidade está inserida.
Já as comunidades tradicionais, como são tratadas as comunidades que tem colaborado para a manutenção da diversidade cultural e ambiental, tem uma organização socioeconômica que não condiz completamente aos padrões da sociedade urbano-industrial, na ocupação do espaço, no uso dos recursos e nas práticas sociais e culturais, com uma produção agrícola artesanal de pequena escala mercantil, estando em uma relação direta com o meio ambiente, com meios de produção, tais como a pesca, a agricultura, o artesanato, o extrativismo, entre outros. As informações identificadas durante a pesquisa sobre a comunidade de Vale Verde coadunam com essa discussão. Na década de 1970, o distrito de Vale Verde foi tombado como patrimônio histórico e, na década de 1990, obras do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN restauraram o centro histórico de Vale Verde, que abriga a Igreja do Divino Espírito Santo e a Praça do Divino do Espírito Santo, onde são realizadas diversas atividades locais.
As atividades culturais em Vale Verde são bem representadas pelas festas religiosas que a comunidade realiza. As mais conhecidas são a festa do Divino Espírito Santo e a festa de São Sebastião, festas tradicionalmente católicas e comuns na história de festas religiosas brasileiras. Essa última, ainda é tradicional na comunidade, conta com a participação de moradores e visitantes, no entanto ela tem proporções menores do que a Festa do Divino que, resulta em comemorações para além do sagrado, com atrações musicais, entre outras, patrocinadas pelo poder público municipal. A celebração anual da festa de São Sebastião é parte importante da história do lugar e faz parte da memória coletiva local, ocupam um lugar especial na memória dos habitantes, mesmo entre os cristãos protestantes, que, atualmente, não participam mais da festa. Os moradores que promovem a festa mantêm os ritos tradicionais. Há o trabalho individual e coletivo envolvido no conjunto das atividades de preparação e realização das festas. Um exemplo é a feitura antecipada do mastro de São Sebastião, a seleção da madeira, a pintura, os enfeites e a figura do santo.
O momento da festa é iniciado com um cortejo, quando são carregados a imagem de São Sebastião e o mastro, que é conduzido somente por homens. O cortejo vai passando e parando em casas e estabelecimentos comerciais, é acompanhado por grupo que toca e outro que canta. Lentamente ele vai percorrendo as principais ruas de Vale Verde e circula o quadrado da Praça do Divino Espírito Santo. Durante o cortejo é servido o “Leite” de São Sebastião, uma espécie de bebida preparada com fruta e a cachaça fabricada no local, o “Leite” é oferecido a todas as pessoas que participam do cortejo. Quem não segue o cortejo, assiste a festa das janelas e nas portas de suas casas. A festa é finalizada diante da Igreja do Divino Espírito Santo, quando o mastro é erguido, substituindo o do ano anterior. Em diversos momentos da festa, percebem-se as relações de parentesco, amizade e vizinhança, características que integram os grupos e a comunidade entre si. Como a festa ocorre no dia 20 de janeiro, um período de férias escolares, é possível reunir as famílias. Nas entrevistas realizadas, todos falaram das festas e de sua experiência em ter participado de algumas delas.
A história de vida do senhor José Maria d’Oliveira se relaciona com a história do local e das festas de lá. Segundo Paul Thompson “em casos importantes da narrativa individual, ela pode ser utilizada para transmitir a história de toda uma classe ou comunidade”. Ele é morador antigo, poeta e músico. Nasceu em Vale Verde, no dia 07 de agosto de 1928, tem descendência indígena e italiana, essa última por parte de seus avós. Seu José é conhecido na região pelos seus escritos e pela música, cantador e tocador, como ele mesmo ressalta – “eu tocava cavaquinho, tocava sanfona, sanfona era bem pouco, eu tocava mais o cavaquinho, eu tocava desde novo”. Suas “modinhas” são famosas na comunidade, abordam diversos temas, já foram publicadas em livro e são cantadas em festas organizadas pela população local, sobretudo as festas religiosas, “as festas (...) eu gostava de cantar São Sebastião, Sebastião, dia vinte de janeiro”, comenta seu José e recita versos seguintes: “São Sebastião hoje é vosso dia, Vamos festejar com muita alegria, Com muita alegria e devoção, Vamos festejar São Sebastião. (...) São Sebastião, Estamos com sede Queremos tomar Uma Vale Verde”.
A partir das memórias de seu José d’Oliveira sobre Vale Verde e de tantos outros entrevistados, a história oral recoloca o papel do indivíduo na história, traz à tona acontecimentos que surpreendem o curso normal da história, eventos que talvez não fossem resgatados, pois fazem parte das memórias “subterrâneas”, que não estão documentadas. Mesmo que, ao relembrar o tempo vivido, sempre é feita uma seleção, ou seja, se há lembranças resgatadas, em contrapartida há outras esquecidas e excluídas de forma consciente ou inconsciente.
Fotos: Galileu
Anais Eletrônicos - VI Encontro Estadual de História - ANPUH/BA - 2013 issn 2175-4772
Vale Verde é uma vila rural localizada na margem do rio Buranhém, entre Arraial d’Ajuda e Trancoso, aproximadamente 40 km da sede do Município de Porto Seguro, Bahia. A história de Vale Verde coincide com o processo de colonização da América Portuguesa, a vinda dos Jesuítas para o Brasil e a história indígena, pois nesse local, durante a segunda metade do século XVI, foi fundada a Missão Jesuítica Aldeia do Espírito Santo dos Índios ou Aldeia Patatiba.
Os índios tinham sua cultura e aldeias de origem, mas com o projeto colonizador, o espaço foi determinado por esses processos históricos, por tradições, costumes e, entre outros, os agrupamentos e reagrupamentos socioespaciais, em função de diversos movimentos migratórios para a região. Assim, atualmente a comunidade de Vale Verde tem seu arranjo espacial, caracterizado pela sua cultura, seus costumes e pormenores sociais dos grupos, mantendo diversos e múltiplos relacionamentos com o seu passado. Após a expulsão dos Jesuítas, no século XVIII, a antiga missão jesuítica passou a ser chamada de Aldeia Vila Verde, depois se tornou Paróquia de Vila Verde e somente no século XX, passa a ser chamada de Vale Verde, como distrito de Porto Seguro. Com o crescimento da população, tendo como principal motivo a chegada de famílias de outras regiões e outros estados, foram surgindo povoados bem próximos.
Atualmente, o distrito é constituído das comunidades de Vale Verde, Bom Jesus, Nossa Senhora da Aparecida e São Miguel. Antes do início da coleta de dados, algumas visitas foram realizadas na comunidade de Vale Verde e os primeiros contatos foram estabelecidos com moradores e coordenadores da Associação de Moradores de Vale Verde, explicando os objetivos e propósitos da pesquisa, que objetiva estudar a história do local, e caracterizar suas práticas sociais e culturais, a partir da história de vida dos seus moradores. As visitas ao local, a participação nas festas religiosas locais e as conversas com os moradores forneceram muitas informações sobre a vida na região, a vida escolar, a produção doméstica, alguns costumes e hábitos, possibilitando que os próprios moradores contribuíssem para a seleção de critérios na escolha dos informantes. Esses deveriam ser moradores ou que vivessem há mais tempo no local e, sobretudo, os que aceitassem participar da pesquisa. A coleta de dados e as conversas com os moradores da comunidade continuam, sempre explicando os objetivos da pesquisa e pedindo o aceite verbal para a realização das entrevistas. Estudos históricos sobre essa comunidade, sobre suas relações sociais e como elas foram se estabelecendo ao longo do tempo, ainda não foram acessados. Nesse caso, as fontes estudadas são os relatos de moradores de Vale Verde. A História Oral foi o que nos aproximou de Vale Verde, possibilitando, através da memória e oralidade dos moradores, valorizar a memória coletiva, a história local e cultural daquela comunidade, além de poder pensar os saberes, as técnicas, práticas e maneiras de conviver desenvolvidas pelos povos, constituindo conhecimentos que, são transmitidos de geração a geração, muitas vezes, oralmente. Segundo Certeau, são os saberes construídos e reconstruídos no dia a dia, por pessoas comuns, de usos comuns, que constroem a história humana.
O registro da história de vida de indivíduos focalizam suas memórias pessoais e dessa forma pode-se construir uma visão mais concreta da dinâmica de funcionamento e das diversas etapas da trajetória do grupo social ao qual pertencem. Através da história oral ainda podemos produzir fontes de documentação e pesquisa, por meio do registro, transcrição, edição dos depoimentos e testemunhos colhidos, o que é importante para grupos e comunidades que pouco se documentam. A construção da história de Vale Verde está sustentada na lembrança dos seus moradores mais antigos, como Seu José d’Oliveira, dona Maria de Oliveira (in memorian), dona Naná e seu Santo, seu Metódio e seu Gezo, e quando é relembrada e contata, desperta a atenção de muitos na comunidade, que fazem referência às suas lembranças individuais e coletivas sobre o lugar. O registro de experiências vividas pelos informantes constitui um instrumento fundamental para compreensão do passado recente, como afirma Thomson “Ouvindo os mitos, as fantasias, os erros e as contradições da memória, e prestando atenção às sutilezas da língua e da forma narrativa, podemos entender melhor os significados subjetivos da experiência histórica”. A maneira pela qual as histórias de vida são narradas (ênfases e silêncios) pode revelar a natureza e o significado da experiência histórica individual ou coletiva, relacionada com a comunidade. Essa questão é presente entre os moradores de Vale Verde, que constituem um grupo ligado ao lugar em que vivem, conservam seu ambiente, mantendo suas tradições culturais e sociais, a produção agrícola e artesanal, além de se organizarem, para buscar melhorias e visibilidade local, mas mantendo as origens da comunidade.
Muitos grupos se transformam, mas mantém a tradição, pois segundo Benjamim,“o que muda, muda sempre a partir do patrimônio anteriormente construído, que permanece em parte no novo”. Muitos são os estudos sobre comunidade, mas não se pretende aqui discutir suas definições mais clássicas ou as suas reelaborações, no entanto, Brancaleone revisita o conceito de comunidade de Ferdinand Tönnies, que apontou três formas de sociabilidade comunitária: os laços de consanguinidade (parentesco); de coabitação territorial (lugar e vizinhança) e de afinidade espiritual (amizade). Ou seja, pode-se pensar uma comunidade em relação aos seus grupos, ligados e unidos por interesses em comum, pela vontade e interesses dos seus membros. E assim, desenvolvem-se práticas coletivas e de organização comum, tradicionais entre eles, estabelecendo relações com a cidade e com a região, onde a comunidade está inserida.
Já as comunidades tradicionais, como são tratadas as comunidades que tem colaborado para a manutenção da diversidade cultural e ambiental, tem uma organização socioeconômica que não condiz completamente aos padrões da sociedade urbano-industrial, na ocupação do espaço, no uso dos recursos e nas práticas sociais e culturais, com uma produção agrícola artesanal de pequena escala mercantil, estando em uma relação direta com o meio ambiente, com meios de produção, tais como a pesca, a agricultura, o artesanato, o extrativismo, entre outros. As informações identificadas durante a pesquisa sobre a comunidade de Vale Verde coadunam com essa discussão. Na década de 1970, o distrito de Vale Verde foi tombado como patrimônio histórico e, na década de 1990, obras do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN restauraram o centro histórico de Vale Verde, que abriga a Igreja do Divino Espírito Santo e a Praça do Divino do Espírito Santo, onde são realizadas diversas atividades locais.
As atividades culturais em Vale Verde são bem representadas pelas festas religiosas que a comunidade realiza. As mais conhecidas são a festa do Divino Espírito Santo e a festa de São Sebastião, festas tradicionalmente católicas e comuns na história de festas religiosas brasileiras. Essa última, ainda é tradicional na comunidade, conta com a participação de moradores e visitantes, no entanto ela tem proporções menores do que a Festa do Divino que, resulta em comemorações para além do sagrado, com atrações musicais, entre outras, patrocinadas pelo poder público municipal. A celebração anual da festa de São Sebastião é parte importante da história do lugar e faz parte da memória coletiva local, ocupam um lugar especial na memória dos habitantes, mesmo entre os cristãos protestantes, que, atualmente, não participam mais da festa. Os moradores que promovem a festa mantêm os ritos tradicionais. Há o trabalho individual e coletivo envolvido no conjunto das atividades de preparação e realização das festas. Um exemplo é a feitura antecipada do mastro de São Sebastião, a seleção da madeira, a pintura, os enfeites e a figura do santo.
O momento da festa é iniciado com um cortejo, quando são carregados a imagem de São Sebastião e o mastro, que é conduzido somente por homens. O cortejo vai passando e parando em casas e estabelecimentos comerciais, é acompanhado por grupo que toca e outro que canta. Lentamente ele vai percorrendo as principais ruas de Vale Verde e circula o quadrado da Praça do Divino Espírito Santo. Durante o cortejo é servido o “Leite” de São Sebastião, uma espécie de bebida preparada com fruta e a cachaça fabricada no local, o “Leite” é oferecido a todas as pessoas que participam do cortejo. Quem não segue o cortejo, assiste a festa das janelas e nas portas de suas casas. A festa é finalizada diante da Igreja do Divino Espírito Santo, quando o mastro é erguido, substituindo o do ano anterior. Em diversos momentos da festa, percebem-se as relações de parentesco, amizade e vizinhança, características que integram os grupos e a comunidade entre si. Como a festa ocorre no dia 20 de janeiro, um período de férias escolares, é possível reunir as famílias. Nas entrevistas realizadas, todos falaram das festas e de sua experiência em ter participado de algumas delas.
A história de vida do senhor José Maria d’Oliveira se relaciona com a história do local e das festas de lá. Segundo Paul Thompson “em casos importantes da narrativa individual, ela pode ser utilizada para transmitir a história de toda uma classe ou comunidade”. Ele é morador antigo, poeta e músico. Nasceu em Vale Verde, no dia 07 de agosto de 1928, tem descendência indígena e italiana, essa última por parte de seus avós. Seu José é conhecido na região pelos seus escritos e pela música, cantador e tocador, como ele mesmo ressalta – “eu tocava cavaquinho, tocava sanfona, sanfona era bem pouco, eu tocava mais o cavaquinho, eu tocava desde novo”. Suas “modinhas” são famosas na comunidade, abordam diversos temas, já foram publicadas em livro e são cantadas em festas organizadas pela população local, sobretudo as festas religiosas, “as festas (...) eu gostava de cantar São Sebastião, Sebastião, dia vinte de janeiro”, comenta seu José e recita versos seguintes: “São Sebastião hoje é vosso dia, Vamos festejar com muita alegria, Com muita alegria e devoção, Vamos festejar São Sebastião. (...) São Sebastião, Estamos com sede Queremos tomar Uma Vale Verde”.
A partir das memórias de seu José d’Oliveira sobre Vale Verde e de tantos outros entrevistados, a história oral recoloca o papel do indivíduo na história, traz à tona acontecimentos que surpreendem o curso normal da história, eventos que talvez não fossem resgatados, pois fazem parte das memórias “subterrâneas”, que não estão documentadas. Mesmo que, ao relembrar o tempo vivido, sempre é feita uma seleção, ou seja, se há lembranças resgatadas, em contrapartida há outras esquecidas e excluídas de forma consciente ou inconsciente.
''O Cemitério”
“ Historinha do Arraial de Nossa Senhora d'Ajuda” Pinheiro Pucu.
A construção do "Cemitério de São Benedito" foi uma obra efetuada como o dinheiro, arrecadado da Irmandade que lhe deu o nome. Sem dúvida, construindo há mais de um século e meio, conforme se ouviu dizer , pela boca dos mais antigos. Há uns setenta anos, não era murado, e sim, cercado de palhas de coqueiro. Fixado como que no ''coração'' do Arraial, com seu pequeno tamanho geralmente fica desapercebido aos olhos dos turistas que ali passam em direção ao caminho da praia. Saturado, pelo pequeno espaço físico que representa e pelo tempo decorrido vem (e está) se tornando um grave problema, já discutido, também durante algum tempo, sem que houvesse uma solução definitiva para o caso. Há uns seis ou sete anos atrás, principiou um movimento em torno da necessidade premente e urgente, de se conseguir uma área maior e mais distante da periferia da Cidade.
Francisco Alexandrino de Morais, o Chico Tripa, filho dos mais antigos do lugar, foi um dos que tentaram resolver esse problema, doando uma área de terra de sua propriedade para que fosse construido um cemitério novo, mas não foi compreendido nem levado à sério pelos ditos benfeitores da comunidade. Conforme suas palavras, estavam ''enterrando os mortos acima de sete palmos!" Quando enterraram o Zé Brás, um dos coveiros atingiu um caixão de ''anjinho'', que foi logo reconhecido por alguém presente, que exclamou -''Conheço aquele caixão! Inda bem que não quebrou . Foi Pedro Borge que fez, conheço o trabalho dele.
A construção do "Cemitério de São Benedito" foi uma obra efetuada como o dinheiro, arrecadado da Irmandade que lhe deu o nome. Sem dúvida, construindo há mais de um século e meio, conforme se ouviu dizer , pela boca dos mais antigos. Há uns setenta anos, não era murado, e sim, cercado de palhas de coqueiro. Fixado como que no ''coração'' do Arraial, com seu pequeno tamanho geralmente fica desapercebido aos olhos dos turistas que ali passam em direção ao caminho da praia. Saturado, pelo pequeno espaço físico que representa e pelo tempo decorrido vem (e está) se tornando um grave problema, já discutido, também durante algum tempo, sem que houvesse uma solução definitiva para o caso. Há uns seis ou sete anos atrás, principiou um movimento em torno da necessidade premente e urgente, de se conseguir uma área maior e mais distante da periferia da Cidade.
Francisco Alexandrino de Morais, o Chico Tripa, filho dos mais antigos do lugar, foi um dos que tentaram resolver esse problema, doando uma área de terra de sua propriedade para que fosse construido um cemitério novo, mas não foi compreendido nem levado à sério pelos ditos benfeitores da comunidade. Conforme suas palavras, estavam ''enterrando os mortos acima de sete palmos!" Quando enterraram o Zé Brás, um dos coveiros atingiu um caixão de ''anjinho'', que foi logo reconhecido por alguém presente, que exclamou -''Conheço aquele caixão! Inda bem que não quebrou . Foi Pedro Borge que fez, conheço o trabalho dele.
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