Cemitério São Benedito;
Por Galileu L. Jr
Foto: Galileu
“Foi durante uma visita não planejada ao cemitério São Benedito, em Arraial d'Ajuda, por conta de uma missa ali celebrada no dia de finados, que me deparei com as condições precárias dos túmulos e sua falta de informações sobre quem está ali sepultado e desde quando, com o efeito das ações de vandalismo que o impactaram, o descuidado com as lápides que ainda restam e o descaso de grande parte da população em relação àquele pequeno cemitério cravado no coração do povoado desde fins do século XIX.
Com o propósito de contribuir para a preservação física e da identidade cultural desse espaço, percorri vários caminhos na busca de informações que me fizessem compreender a estrutura social do Arraial d'Ajuda. Nesse caminho, onde usei a entrevista como fonte de pesquisa, fui contemplado com depoimentos carregados de emoção de personagens até então invisíveis aos dados historiográficos sobre o povoado.
Em pesquisa ainda em andamento, difícil é encontrar registros de óbitos nos cartórios de registro civil da grande maioria dos sepultados ali. Principalmente àqueles do final do século XIX, época provável de sua construção, visto que assim determinava a corte em relação aos sepultamentos extramuros, ou seja, fora das igrejas. Lembramos que no século XIX, Arraial não passava de um minúsculo povoado pobre, de pequenos agricultores e pescadores, em que os registros de nascimento e óbitos eram, praticamente, inexistentes. Já aqueles sepultados a partir da metade do século XX, tem seus registros mais facilmente encontrados.
O cemitério São Benedito recebe cerca de 60 túmulos horizontais, em uma área descoberta de aproximadamente 150 m2, em estilo jesuítico, com poucas sepulturas identificadas por lápides de pequenas dimensões ao nível do chão, localizado a cerca de 200 metros da Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda. Na paisagem cemiterial do São Benedito, podemos identificar indivíduos que tiveram importância na sociedade, estrangeiros e também indivíduos que jamais recebem visitas de algum familiar ou ente querido. Encontramos ali, entre outros, os restos mortais de Fábio Messias Nobre, Guiomar Gonçalves, George Oliveira, Manoel Crescêncio Santiago, Joana Ramos e Graciliano Ramos, José Borges Valiense, João Alves Santos, Lindalva Evangelista, Carlos Valiense, Pedro Hansen, Josiel Borges Lage, Bento Alexandrino de Moraes e muitos outros.
Uma curiosidade: em descrição da lápide em termos de antiguidade ainda preservada e visível, verificamos a sepultura de Antônio da Silva, de 1905. O cemitério foi desativado em 1994, ano da construção do novo cemitério, chamado Jardim da Paz. Há controvérsias ainda sobre o último sepultado no São Benedito, sendo, possivelmente, Ruth de Souza Santos, em 1994. Observa-se que no dia-a-dia, grande parte da população, seja local ou de turistas que visitam o povoado, não atentam para a importância e muito menos para a preservação do cemitério enquanto patrimônio cultural. Ele é praticamente invisível.
Ali encontra-se sepultada uma pequena, mas importante parte da história do povoado e é preciso resgatar e preservar a memória local e, por que não, regional deste lugar, que é considerado pela historiografia oficial o espaço dos primeiros encontros entre europeus e grupos indígenas. Além de resgatar e trabalhar para impedir que essa memória desapareça, é necessário buscar soluções para preservar o espaço físico do histórico cemitério, como os túmulos, lápides, jardim, capelinha com o São Benedito, muros, portada e iluminação.”
história, literatura, feijão, filosofia, antropologia, arroz, psicanálise, arte, acarajé
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