Por Ivaneide Almeida da Silva
Fotos: Galileu
Anais Eletrônicos - VI Encontro Estadual de História - ANPUH/BA - 2013 issn 2175-4772
Vale Verde é uma vila rural localizada na margem do rio Buranhém, entre Arraial d’Ajuda e Trancoso, aproximadamente 40 km da sede do Município de Porto Seguro, Bahia. A história de Vale Verde coincide com o processo de colonização da América Portuguesa, a vinda dos Jesuítas para o Brasil e a história indígena, pois nesse local, durante a segunda metade do século XVI, foi fundada a Missão Jesuítica Aldeia do Espírito Santo dos Índios ou Aldeia Patatiba.
Os índios tinham sua cultura e aldeias de origem, mas com o projeto colonizador, o espaço foi determinado por esses processos históricos, por tradições, costumes e, entre outros, os agrupamentos e reagrupamentos socioespaciais, em função de diversos movimentos migratórios para a região. Assim, atualmente a comunidade de Vale Verde tem seu arranjo espacial, caracterizado pela sua cultura, seus costumes e pormenores sociais dos grupos, mantendo diversos e múltiplos relacionamentos com o seu passado. Após a expulsão dos Jesuítas, no século XVIII, a antiga missão jesuítica passou a ser chamada de Aldeia Vila Verde, depois se tornou Paróquia de Vila Verde e somente no século XX, passa a ser chamada de Vale Verde, como distrito de Porto Seguro. Com o crescimento da população, tendo como principal motivo a chegada de famílias de outras regiões e outros estados, foram surgindo povoados bem próximos.
Atualmente, o distrito é constituído das comunidades de Vale Verde, Bom Jesus, Nossa Senhora da Aparecida e São Miguel. Antes do início da coleta de dados, algumas visitas foram realizadas na comunidade de Vale Verde e os primeiros contatos foram estabelecidos com moradores e coordenadores da Associação de Moradores de Vale Verde, explicando os objetivos e propósitos da pesquisa, que objetiva estudar a história do local, e caracterizar suas práticas sociais e culturais, a partir da história de vida dos seus moradores. As visitas ao local, a participação nas festas religiosas locais e as conversas com os moradores forneceram muitas informações sobre a vida na região, a vida escolar, a produção doméstica, alguns costumes e hábitos, possibilitando que os próprios moradores contribuíssem para a seleção de critérios na escolha dos informantes. Esses deveriam ser moradores ou que vivessem há mais tempo no local e, sobretudo, os que aceitassem participar da pesquisa. A coleta de dados e as conversas com os moradores da comunidade continuam, sempre explicando os objetivos da pesquisa e pedindo o aceite verbal para a realização das entrevistas. Estudos históricos sobre essa comunidade, sobre suas relações sociais e como elas foram se estabelecendo ao longo do tempo, ainda não foram acessados. Nesse caso, as fontes estudadas são os relatos de moradores de Vale Verde. A História Oral foi o que nos aproximou de Vale Verde, possibilitando, através da memória e oralidade dos moradores, valorizar a memória coletiva, a história local e cultural daquela comunidade, além de poder pensar os saberes, as técnicas, práticas e maneiras de conviver desenvolvidas pelos povos, constituindo conhecimentos que, são transmitidos de geração a geração, muitas vezes, oralmente. Segundo Certeau, são os saberes construídos e reconstruídos no dia a dia, por pessoas comuns, de usos comuns, que constroem a história humana.
O registro da história de vida de indivíduos focalizam suas memórias pessoais e dessa forma pode-se construir uma visão mais concreta da dinâmica de funcionamento e das diversas etapas da trajetória do grupo social ao qual pertencem. Através da história oral ainda podemos produzir fontes de documentação e pesquisa, por meio do registro, transcrição, edição dos depoimentos e testemunhos colhidos, o que é importante para grupos e comunidades que pouco se documentam. A construção da história de Vale Verde está sustentada na lembrança dos seus moradores mais antigos, como Seu José d’Oliveira, dona Maria de Oliveira (in memorian), dona Naná e seu Santo, seu Metódio e seu Gezo, e quando é relembrada e contata, desperta a atenção de muitos na comunidade, que fazem referência às suas lembranças individuais e coletivas sobre o lugar. O registro de experiências vividas pelos informantes constitui um instrumento fundamental para compreensão do passado recente, como afirma Thomson “Ouvindo os mitos, as fantasias, os erros e as contradições da memória, e prestando atenção às sutilezas da língua e da forma narrativa, podemos entender melhor os significados subjetivos da experiência histórica”. A maneira pela qual as histórias de vida são narradas (ênfases e silêncios) pode revelar a natureza e o significado da experiência histórica individual ou coletiva, relacionada com a comunidade. Essa questão é presente entre os moradores de Vale Verde, que constituem um grupo ligado ao lugar em que vivem, conservam seu ambiente, mantendo suas tradições culturais e sociais, a produção agrícola e artesanal, além de se organizarem, para buscar melhorias e visibilidade local, mas mantendo as origens da comunidade.
Muitos grupos se transformam, mas mantém a tradição, pois segundo Benjamim,“o que muda, muda sempre a partir do patrimônio anteriormente construído, que permanece em parte no novo”. Muitos são os estudos sobre comunidade, mas não se pretende aqui discutir suas definições mais clássicas ou as suas reelaborações, no entanto, Brancaleone revisita o conceito de comunidade de Ferdinand Tönnies, que apontou três formas de sociabilidade comunitária: os laços de consanguinidade (parentesco); de coabitação territorial (lugar e vizinhança) e de afinidade espiritual (amizade). Ou seja, pode-se pensar uma comunidade em relação aos seus grupos, ligados e unidos por interesses em comum, pela vontade e interesses dos seus membros. E assim, desenvolvem-se práticas coletivas e de organização comum, tradicionais entre eles, estabelecendo relações com a cidade e com a região, onde a comunidade está inserida.
Já as comunidades tradicionais, como são tratadas as comunidades que tem colaborado para a manutenção da diversidade cultural e ambiental, tem uma organização socioeconômica que não condiz completamente aos padrões da sociedade urbano-industrial, na ocupação do espaço, no uso dos recursos e nas práticas sociais e culturais, com uma produção agrícola artesanal de pequena escala mercantil, estando em uma relação direta com o meio ambiente, com meios de produção, tais como a pesca, a agricultura, o artesanato, o extrativismo, entre outros. As informações identificadas durante a pesquisa sobre a comunidade de Vale Verde coadunam com essa discussão. Na década de 1970, o distrito de Vale Verde foi tombado como patrimônio histórico e, na década de 1990, obras do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN restauraram o centro histórico de Vale Verde, que abriga a Igreja do Divino Espírito Santo e a Praça do Divino do Espírito Santo, onde são realizadas diversas atividades locais.
As atividades culturais em Vale Verde são bem representadas pelas festas religiosas que a comunidade realiza. As mais conhecidas são a festa do Divino Espírito Santo e a festa de São Sebastião, festas tradicionalmente católicas e comuns na história de festas religiosas brasileiras. Essa última, ainda é tradicional na comunidade, conta com a participação de moradores e visitantes, no entanto ela tem proporções menores do que a Festa do Divino que, resulta em comemorações para além do sagrado, com atrações musicais, entre outras, patrocinadas pelo poder público municipal. A celebração anual da festa de São Sebastião é parte importante da história do lugar e faz parte da memória coletiva local, ocupam um lugar especial na memória dos habitantes, mesmo entre os cristãos protestantes, que, atualmente, não participam mais da festa. Os moradores que promovem a festa mantêm os ritos tradicionais. Há o trabalho individual e coletivo envolvido no conjunto das atividades de preparação e realização das festas. Um exemplo é a feitura antecipada do mastro de São Sebastião, a seleção da madeira, a pintura, os enfeites e a figura do santo.
O momento da festa é iniciado com um cortejo, quando são carregados a imagem de São Sebastião e o mastro, que é conduzido somente por homens. O cortejo vai passando e parando em casas e estabelecimentos comerciais, é acompanhado por grupo que toca e outro que canta. Lentamente ele vai percorrendo as principais ruas de Vale Verde e circula o quadrado da Praça do Divino Espírito Santo. Durante o cortejo é servido o “Leite” de São Sebastião, uma espécie de bebida preparada com fruta e a cachaça fabricada no local, o “Leite” é oferecido a todas as pessoas que participam do cortejo. Quem não segue o cortejo, assiste a festa das janelas e nas portas de suas casas. A festa é finalizada diante da Igreja do Divino Espírito Santo, quando o mastro é erguido, substituindo o do ano anterior. Em diversos momentos da festa, percebem-se as relações de parentesco, amizade e vizinhança, características que integram os grupos e a comunidade entre si. Como a festa ocorre no dia 20 de janeiro, um período de férias escolares, é possível reunir as famílias. Nas entrevistas realizadas, todos falaram das festas e de sua experiência em ter participado de algumas delas.
A história de vida do senhor José Maria d’Oliveira se relaciona com a história do local e das festas de lá. Segundo Paul Thompson “em casos importantes da narrativa individual, ela pode ser utilizada para transmitir a história de toda uma classe ou comunidade”. Ele é morador antigo, poeta e músico. Nasceu em Vale Verde, no dia 07 de agosto de 1928, tem descendência indígena e italiana, essa última por parte de seus avós. Seu José é conhecido na região pelos seus escritos e pela música, cantador e tocador, como ele mesmo ressalta – “eu tocava cavaquinho, tocava sanfona, sanfona era bem pouco, eu tocava mais o cavaquinho, eu tocava desde novo”. Suas “modinhas” são famosas na comunidade, abordam diversos temas, já foram publicadas em livro e são cantadas em festas organizadas pela população local, sobretudo as festas religiosas, “as festas (...) eu gostava de cantar São Sebastião, Sebastião, dia vinte de janeiro”, comenta seu José e recita versos seguintes: “São Sebastião hoje é vosso dia, Vamos festejar com muita alegria, Com muita alegria e devoção, Vamos festejar São Sebastião. (...) São Sebastião, Estamos com sede Queremos tomar Uma Vale Verde”.
A partir das memórias de seu José d’Oliveira sobre Vale Verde e de tantos outros entrevistados, a história oral recoloca o papel do indivíduo na história, traz à tona acontecimentos que surpreendem o curso normal da história, eventos que talvez não fossem resgatados, pois fazem parte das memórias “subterrâneas”, que não estão documentadas. Mesmo que, ao relembrar o tempo vivido, sempre é feita uma seleção, ou seja, se há lembranças resgatadas, em contrapartida há outras esquecidas e excluídas de forma consciente ou inconsciente.
história, literatura, feijão, filosofia, antropologia, arroz, psicanálise, arte, acarajé
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